Podem me chamar de careta- COLUNA CATARSES CRÔNICAS

Vânia_perfil

*Vânia Gomes

Tenho andado incomodada com algumas notícias de certos portais da internet. Como cidadã do século passado, mantenho muitos, praticamente todos os valores que eram caros ao século XX. Entre eles, a compostura, e é justamente a falta dela que tem me incomodado.

Meu marido tem uma frase ótima para isso: agora, com a internet, ficamos sabendo de coisas nas quais não temos o menor interesse e que antes dela jamais saberíamos. E é a verdade, claríssima, exibida nas tais notícias onde quase se idolatra a falta de compostura.

Por exemplo, no século XX, mesmo depois do advento da pílula anticoncepcional e da consequente liberdade sexual das mulheres, o número de parceiros sexuais era algo considerado íntimo. Ainda deveria ser, mas uma subcelebridade dessas que sobram por aí revelou certa vez que já esteve na cama com cerca 400 homens. Em que pese parecer um número digno de prostituição, não é este o ponto: a moça pode ir para a cama com quem e com quantos homens ela bem entender. Mas por que e para que anunciar aos quatro ventos algo que, a meu ver, deveria ser íntimo? Qual a vantagem disso? Como cidadã do século passado, só vejo desvantagens.

Reality shows são outra forma da indiscrição e da falta de compostura invadirem nossos olhos, nossos lares, caso acompanhemos. É impossível escapar de tais informações. Ano passado, foi amplamente noticiado que um casal confinado fez sexo sem camisinha. Ok, os sujeitos estão na chuva para se molharem, mas será que não dava para impor algum limite? Ou fazer uma edição menos pornográfica? Claro que sim, mas o que “interessa”, o que vende e ganha pontos no Ibope é justamente a exposição da intimidade.

Outro exemplo: há algum tempo, uma famosa apresentadora de TV sexagenária fez topless, posou para fotos e, claro, postou-as na internet. Não sou contra topless, nem contra sexagenárias estarem com tudo em cima, nem contra tirar fotos de um domingo na piscina, mas, francamente, eu não gostaria de ver minha mãe pagando um micão desses ao postar tais fotos na internet. Alguém gostaria? Será que os filhos dela gostaram? Será que ela não tem um amigo de verdade que possa lhe dizer “menos, querida, menos”?

Elegância e feminilidade, na minha opinião, deveriam nortear o comportamento da mulher. Falo da elegância de modos, da maneira de sentar-se, de se colocar e se comportar em público. A elegância pressupõe sentar-se de maneira adequada, vestir-se decentemente e de acordo com a idade (e não precisa ser careta!), manter certa discrição de sua vida, de suas atividades. A feminilidade pede cuidado com as mãos, os pés, os cabelos. A escolha de roupas, desde a seleção do tecido à modelagem, passando pelo comprimento, são outros itens que contam pontos. Garanto que tais modos chamam a atenção positivamente e, inclusive, ajudam na conquista de empoderamento feminino.

Os exemplos acima, ao contrário, chamam a atenção negativamente. Ou será que a maioria acha a moça dos 400 homens um exemplo de sucesso? Minha Nossa Senhora da Compostura, espero que não tenhamos chegado a esse ponto!

Ainda me recordo de uma ocasião em que, estando no aeroporto de João Pessoa, uma senhora, aparentando ser sexagenária e com um pujante sobrepeso, vestia uma espécie de um collant realmente colado, com alcinhas que pareciam prestes a se arrebentar e uma bermuda igualmente colada. “Amostra grátis do inferno”, comentei com meu marido. E então veio a pergunta: quando foi que senhoras passaram a se achar mocinhas? Eu, que na ocasião, tinha pouco mais de 30 anos, não “ousava” mais cobrir-me daquela maneira, digamos, tão a descoberto. Meus quinze anos já tinham ficado para trás havia muito tempo.

A deterioração dos costumes vem ocorrendo a passos largos. A necessidade de se mostrar e a importância de aparentar em vez de ser estão substituindo valores caros à humanidade, como o respeito, por exemplo. Quem se lembra de uma edição de um reality show em que uma das confinadas, hoje estrela global, não beijava o namorado em frente às câmeras de jeito nenhum? Tinha respeito pelo pai e sabia que ele se aborreceria com sua indiscrição. E pelo que já vi sobre essa moça, posso dizer que ela é a elegância em pessoa, sempre bem vestida e discreta, mas essas suas qualidades nunca são destacadas pela imprensa. Aliás, a imprensa esteve interessada mesmo foi nos porões da separação da moça. A coitada fazendo de tudo para manter a privacidade, ainda mais naquele momento difícil, e a imprensa cavoucando sua vida.

Defendo o direito de cada um ir para a cama com quem bem entender, de amar seu corpo e fotografá-lo da maneira que lhe aprouver, mas defendo também a discrição, as boas maneiras, a boa educação, a compostura, o comportamento elegante. Não precisa anunciar ao mundo que você dá pra caramba, nem que ama seu corpão sexagenário que certamente custou caro.

Se isso é ser careta, podem me chamar de careta, sou mesmo!

Vânia Gomes é mineira de Belo Horizonte e vive em Brasília desde 2001, quando se apaixonou definitivamente pela cidade. Aventura-se na escrita de contos, poemas e crônicas e é autora do livro “Histórias do Vaticano e Outros Contos”. Para conhecer mais sobre a escritora, acessehttp://www.vaniagomes.com.br. E-mail- vania@vaniagomes.com.br

 

Anúncios

Um comentário sobre “Podem me chamar de careta- COLUNA CATARSES CRÔNICAS

  1. Excelente texto, Vaninha. Além de muito bem escrito revela com seriedade os desdobramentos infelizes de pessoas que esqueceram
    completamente os valores intrínsecos do ser humano.
    Parabéns!
    Beijos

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s