COLUNA “A VIDA COM POESIA É MELHOR”

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APARAS DE SONHO

O sonho passou feito um cometa.
No seu rastro, a limalha de alguns momentos
que se recusam a virar pó,
para ser espalhado na distância.
Inútil tentar esvaziar a memória,
ela insiste em ser manhã sem alvorada
e sobrevive, mesmo em vórtice de espadas.

ÚLTIMO DESEJO

Um último desejo:
pescar palavras
nos gestos, no olhar das pessoas,
nos silêncios.
Se elas morderem a isca
é porque foram iludidas em sua certeza,
mas se fugirem para o seu universo sem bordas
resta a poesia que está no vento, no sorriso,
em cada passo que se afasta do fel
e se aproxima do amor.

PRESSENTIMENTO

O poeta vai mesclando o que não vê,
mas pressente. Sente.
A palavra, entre os escombros,
desvia de sua rota, atrás da luz
que é incerta, opaca.
Quer abraçar a poema que engenha, inseguro,
e dispõe sobre a brancura do papel,
mas o verso é duro, esquivo;
nele não cabem os sonhos
que um dia viu desenhado no rosto da menina.
Pela porta aberta, uma réstia de ar sussurra:
tenta a face da alegria, pode ser que ela atraia a poesia.

POEMA MATINAL

Assim: do nada,
o silêncio vai assoprando
as imagens que brotam da lembrança.
O pensamento corre tão célere que, a custo,
as palavras encontram a roupagem que vestem.
No compasso das horas, a manhã sonolenta
vai descobrindo cores risonhas,
cuidando para que tons acres
não se sobreponham à curva do sorriso.
A película entre um minuto e outro é a medida certa:
ao olhar duas vezes para o mesmo ponto,
a luz se mostra com mais clareza.

MEMÓRIA

Porque o tempo guarda a memória de seus arbustos?
Pisei, passei.
O vento cobriu as pegadas e sibilou,
rareou o contorno das luzes e o verso parou.
não havia bocas para serem beijadas
nem olhos para o pastoreio.

Só o cabelo ainda preso pelas lembranças dos barcos
que partiram e sua luz refletida nos espelho,

como a lua, fingindo ser prata.

Na janela da tarde, o escuro.
Palavras secretas vagam incompletas, à procura do tempo

Vazio.

É certo que terei os pingos da chuva
que caíram dos meus olhos:
colheita farta dos dias de solidão.

Basilina Pereira é mineira, mas reside em Brasília desde 1983. É professora aposentada, advogada e poeta. Tem 3 filhas e 4 netos. Já participou de 34 antologias e publicou 8 livros, sendo 6 de poesia e 1 romance e um de contos. Faz parte de 7 Academias, inclusive é imortal da Academia de Letras do Brasil/DF, cadeira nº 15 e já foi agraciada com vários prêmios: nacionais e internacionais.

 

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