O catolicismo vai à bancarrota – COLUNA CATARSES CRÔNICAS

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*Vânia Gomes

Sou católica meia boca. Uma vergonha, na verdade, pois já fui — em outra vida, claro — uma pessoa bem envolvida na comunidade. Hoje em dia, vou à missa só de vez em quando, e nem sempre é na Páscoa. Mas quando vou, participo e fico atenta a tudo.

Há algum tempo, por exemplo, fui à missa e foi surpreendente ver, na procissão de entrada, um sacerdote baixinho com solidéu vermelho. Pensei: é um cardeal, mas de onde? Limito-me a dizer, nesta crônica, que não era o cardeal de Brasília.

Antes de a missa começar, anunciaram as intenções: celebração de sétimo dia de falecimento de três pessoas, uns dois aniversários e um aniversário especial, 59 anos de casamento.

O que eu esperava na homilia? O óbvio, o que qualquer pessoa normal esperaria: além de uma breve reflexão do Evangelho e de uma brevíssima menção com palavras reconfortantes aos parentes e amigos que perderam seus entes queridos, uma exaltação aos 59 anos de vida em comum dos velhinhos. Esperava uma ode à família, a uma vida de lutas, de amor, de cumplicidade, de entrega. E qual não foi minha decepção quando o tal cardeal dedicou 99% de seu sermão a enaltecer um dos falecidos, que foi pessoa atuante na comunidade e, muito provavelmente, um tremendo puxa-saco. Desculpem, nem conheço o tal senhor (Deus o tenha!), mas é incrível que o cardeal não tenha feito uma única e singela menção às bodas de cereja de duas pessoas que estavam presentes (vivas!) com seus descendentes. Um absurdo!

Atualmente, é muito difícil um casal alcançar essa marca. Primeiro, porque hoje em dia as pessoas não se casam tão jovens. E segundo, porque muitos casamentos não duram nem dez anos, que dirá bodas de prata, ouro, diamante. Os números não mentem, aliás, corroboram essa segunda premissa. Segundo o IBGE, o número de divórcios aumentou 161,4% entre 2004 e 2014. Em Brasília, a coisa é ainda pior: o DF apresentou a maior incidência de divórcios em 2014. A média de duração dos casamentos não passa de 15 anos.

E então um casal alcança 59 anos de vida em comum e um cardeal (entendam: é um cara que pode ser eleito papa!) não dá o devido valor ao fato. Conclusão óbvia: a igreja católica, definitivamente, está tão ensimesmada, tão despreparada, que seu destino parece ser a bancarrota. O catolicismo está ruindo. E depois não entende por que está perdendo fiéis. Já respondo: por pura incompetência.

Em que pese a simpatia, o preparo e o carisma do Papa Francisco, só 61% dos brasileiros se declarou católico em 2014. Mas Francisco sozinho não consegue conter a debandada, mesmo porque alguns de seus irmãos e subordinados (cardeais, bispos e padres) fazem um servicinho de meia tigela. Pura incompetência. Aliás, quão fiéis eram os “fiéis”?  Quando católicos, acreditavam em Nossa Senhora, em santos e anjos. Viraram protestantes e passaram a abominar suas antigas crenças. Não conheciam Jesus antes, é isso?

Questiono a fé, a minha e a de todo mundo. Mesmo sendo católica meia boca, reconheço em Nossa Senhora a grande mulher que aceitou a difícil missão proposta por seu Deus. Reconheço nos santos pessoas comuns que fizeram a diferença para outras pessoas, para a fé, para a própria igreja; são verdadeiros exemplos de vida cristã. Se um dia essa minha fé mudar, será para nada: virarei ateia. Isso, porque quero muito mais que promessas: quero exemplos de vida verdadeiramente cristã, de amor ao próximo, de entrega. Não acho que Deus ou Jesus vai se ocupar com meus desejos materiais, não quero isso. Há muita doença, muita tristeza, muita fome, muita guerra, muita dor, muita desgraça a que devem ser dedicadas a misericórdia, o perdão e o amor de Cristo. Meus problemas são nada perto dos que massacram a humanidade.

Mas as “lideranças” católicas parecem cegas, incapazes de olhar para dentro de si, enquanto corpo eclesial. E requentam seus próprios feitos e rituais, se perdem na entropia comunitária e não enxergam além das paredes do templo. O exemplo mais claro foi o tal cardeal, que ocupou uns vinte minutos com o senhor falecido dedicado à comunidade; vinte segundos com os parentes e amigos dos outros dois falecidos; e outros vinte segundos com os aniversariantes. Não dedicou um milésimo de segundo ao casal das bodas de cereja.

Por que fui à missa? Fui rezar por uma amiga querida que nos deixou prematuramente; as músicas da celebração eucarística foram emocionantes; o evangelho era sobre exorcismo. Tanto material para explorar, mas o cardeal foi decepcionante. Sou uma católica decepcionante também, mas uma decepção dessas me afasta mais da igreja, da comunidade.

Vivemos uma era materialista, superficial. A igreja católica é feita de homens e, como uma pessoa do meu tempo, foi muita ingenuidade minha esperar algo mais da homilia feita por um homem comum. Ai de mim! Ai da Igreja!

Não sou ninguém, mas mesmo assim perdoo o cardeal. E tenho pena do povo, que, perdido no meio de tantas crenças, está mesmo é desamparado espiritualmente, à mercê de aproveitadores. Triste realidade.

*Vânia Gomes é mineira de Belo Horizonte e vive em Brasília desde 2001, quando se apaixonou definitivamente pela cidade. Aventura-se na escrita de contos, poemas e crônicas e é autora do livro “Histórias do Vaticano e Outros Contos”. Para conhecer mais sobre a escritora, acessehttp://www.vaniagomes.com.br. E-mail- vania@vaniagomes.com.br

 

 

 

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