COLUNA “A VIDA COM POESIA É MELHOR”

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*Basilina Pereira

DESENCONTRO

A palavra miúda tem mais poder.

Ela concentra, sintetiza,

encerra o que há de mais puro na verdade

e quando a boca se abre para o pouso do beija-flor,

ela, que também emite o menor som da terra,

reflete a solidão da hora

em que o amor se abriu para a vida

e a resposta ficou vagando no ar.

O PESO DOS DIAS

Difícil medir o peso dos dias

encharcado na carapaça dos ombros.

O lado da frente é mais frágil,

isso se evidencia na curvatura silenciosa

que o tempo vai cavando na travessia das lembranças

embaladas em papel fumaça.

As batidas do coração marcam o compasso

em que os seixos vão se amoldando

ao teto de cada sentimento desarmado.

Entre um passo e outro, o afã

de manter a armadura nos limites

da esperança que, mesmo cega, alumia.

a noite incerta até o amanhecer.

ESTREIA

Aportamos sem bússola,

sem passos e nenhuma garantia.

Na bagagem, um choro amador

de quem não sabe, mas pressente

os espinhos, a chuva

e a longa noite de carências.

Até as palavras se negam no momento primeiro,

tornando as urgências uma flor sem haste,

um poema que caiu no palco

assim: no tropeço e precisa encontrar a rima

que reveste o sentido da vida.

QUANDO BRILHA O MOMENTO

A poesia é minha música,

aquela que faz a alma vibrar

no ritmo da melodia das folhas,

que se enfeitam para o beijo do sol.

A poesia é a pintura que não fazer,

mas da exuberância das cores e da leveza das formas

retiro metáforas que envolvem o arco-íris

e embalam o crepúsculo com a suavidade de um colo de mãe.

Por vezes, ouso esculpir a poesia.

Lapido a matéria bruta

com o que tenho de mais sutil e profundo,

buscando capturar nas profundezas da alma

aquele raio de liberdade

que sobrevive entre o grito e o silêncio.

Depois, emolduro o poema.

Nem sempre a rima se faz visível,

mas no interior do verso se há de encontrar

aquele o eco fortuito que reveste a palavra

e faz o momento brilhar.

A CENA

O teu nome mergulhado na saudade,

sem porto nem bússola.

Um tempo em que teus olhos amanheciam dentro dos meus

e tuas mãos desenhavam sóis em minha pele.

Tuas palavras ainda reverberam em minha alma,

qual fossem notas de uma canção-sorriso

tecida com as chamas da paixão.

Sim, a cena ainda resiste na memória,

pois o tempo, sábio que é,

conserva ileso o que um dia foi eternidade.

 

*Basilina Pereira é mineira, mas reside em Brasília desde 1983. É professora aposentada, advogada e poeta. Tem 3 filhas e 4 netos. Já participou de 34 antologias e publicou 8 livros, sendo 6 de poesia e 1 romance e um de contos. Faz parte de 7 Academias, inclusive é imortal da Academia de Letras do Brasil/DF, cadeira nº 15 e já foi agraciada com vários prêmios: nacionais e internacionais.

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