Aquários Ecologísticos-COLUNA CIÊNCIA PONTO CONSCIÊNCIA

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Aquários Ecologísticos

*Ildefonso de Sambaíba

Apesar de ser do signo de aquário, tenho pouco a ver com peixes de verdade e carrego fobia a águas volumosas, mesmo piscinas. Só adentro a elas até que alcancem a altura da cintura. Quanto aos nadantes, até na hora de saboreá-los tenho cismas. Sempre acho que estão com cheiro de crueza. Exceção para os mandubés e surubins preparados por dona Maria José, minha dileta mãezinha de 87 anos – sim, ela ainda cozinha, de vez em quando. Nas sagradas mãos daquela sagrada mulher qualquer prato adquire sabor diferenciado. De onde terão vindo tantos predicados?

Não obstante aos receios acima referidos, este mês quase viro um peixe, na concepção gramatical. Estive em visita à Água Mineral e às Águas emendadas – mês passado estive em Olhos d´Água. Explico: estou falando de reservas ambientais, aqui do Distrito Federal, que levam o nome do mais precioso líquido planetário. Sempre a tiracolo de grupos ecológicos, digo, brincando, que minha titularidade na turma é de observador dos observadores, já que eles assim se definem.

Quanto ao que vi e apreciei nas duas últimas visitas “ecologísticas” falarei na próxima coluna, a do mês de julho. Desculpem-me, não estou impondo suspense, é que se esgotou o espaço neste bloco noticioso. Mas adianto que foi exuberante!

 

Reflexões de Maria Félix

Depois de percorrer várias regiões, o andarilho chega a um lugar controlado por trogloditas. Ali, não existia a menor compaixão pelo sofrimento alheio. Ele viu, por exemplo, um homem cair em um poço e gritar por socorro. As pessoas, de cima, olhavam e não faziam nada. Não demorou muito para descobrir que estava na Cidade dos Imortais. Como ninguém morria ninguém também ajudava o outro. A dedução era uma só: ele não vai morrer mesmo! Então, o imortal poderia ficar séculos em grande padecimento.

Moral da história: exercitamos a compaixão, nos empenhamos em ajudar o próximo porque um dia ele vai morrer, e nós também. Enfim, a benevolência é sentimento humano. (…) Por isso, Deus não nos concedeu a imortalidade aqui na Terra. Só mesmo a imortalidade da alma, depois de morrermos várias vezes, como prêmio pelo abrandamento de nossas maldades! Como dizia Goethe: “A vida é a infância da imortalidade”. Eis o nosso consolo!

Os dois parágrafos iniciais, acima, deste texto, foram retirados, ipsis verbis, de crônica da poetisa-jornalista Maria Félix Fontele, da Academia Taguatinguense de Letras (DF). Onde a autora imprime reflexões sobre um conto de Jorge Luís Borges, intitulado “O imortal”.

 

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Et-Cétera-e-Tal

Corações doloridos, Brasil a fora: uma adolescente despertara grogue e desnuda, cercada por mais de trinta homens-demônios, drogados e armados de metralhadoras. Entregue ao grupo por um dos satanases, o próprio namorado, a jovem fora dopada e estuprada, impiedosamente. O acontecimento se dera numa comunidade carioca. Inferno na Terra! *** Da janela, vejo uma pomba selvagem colhendo cascas de vagens secas, dos galhos de cambuí, para construir seu ninho. No dia seguinte, Leninha posta, no feice, um vídeo com outra pomba na mesma ocupação. Vida natural em cenário urbano: Viva! *** As festas juninas de São Luís deste ano estarão sem um dos artistas mais expressivos das terras maranhenses. Foi morar no céu o cantor, compositor e ritmista Papete, mundialmente conhecido pelas performances. “Madre Deus de São Pedro fez esse boi chorar”. *** Senhor, fazei de mim instrumento da Vossa paz!    

 

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(*) Jornalista (DRT/DF-3633); funcionário público, aposentado; poeta, autor de Vida de Vidro, Buquê de UrtigasQuem matou as Gazelas? e Samjahlia: Versos in Versos. e-mail: ildefonso.sambaiba@brturbo.com.br; twitter: @ildefonso_s

  

Fotograma de uma Cracolândia-COLUNA CIÊNCIA PONTO CONSCIÊNCIA

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FOTOGRAMA DE UMA CRACOLÂNDIA

*Ildefonso de Sambaíba

Aqui estamos, em pleno coração de Brasília, no Setor Comercial Sul (SCS, para os mais íntimos). Somos protagonistas de extensa fila de apostas lotéricas. A Mega-Sena, acumulada, passa dos cem milhões de reais. Sempre que isso acontece, todos se despem das cerimônias, seja A, B, C ou D. Assumem o mesmo espírito ambicioso de ficar rico da noite para o dia, ou do dia para a noite. Entrementes, os burburinhos do tipo “o que vou fazer com o prêmio”, agora, transformam-se em silêncio de cemitério. Um casal que se aproxima dos enfileirados atrai o máximo das atenções.

Ele, o rapaz, com pés descalços e acentuado prejuízo da massa muscular, fraseia em dialeto transigente com sua rotina de vida, provavelmente. Dirige-se aos apostadores e pede “um trocado, para um rango”, pois nada comera ainda neste “hoje”. Paradoxalmente, veste camiseta com destacadas manchas de calçadas, mas com uma chamativa propaganda, dirigida a quem deseja galgar titularidades acadêmicas – “UniCespa: graduação, pós-graduação, MBA, mestrado, doutorado.”

Ela, a moça, não obstante a delicadeza das feições já camufladas pelo maltrato, ainda carrega discreta vaidade feminina. Usa um reluzente par de brincos róseos, cravados na mesma orelha esquerda. Fala roucamente alto, em tom provocativo, e debocha da vida: “Estou nesta situação, mas tenho um filho lindo que vai estudar e ser alguém… nem que seja o chefe da boca-de-fumo”. E como a pedir socorro (!!!), rasga-se em gargalhadas estridentes.

Engasgados na própria mudez, entreolhamo-nos. Nada mais.

 

Reencontros e Redespedidas

De tanto nos falarmos apenas pelas redes sociais, surgiu a palavra “saudade”. Bastou que alguém dissesse que estava saudoso dos demais, o vocábulo ganhou audiência dentro do grupo, e marcamos um happy hour. Entre os que, inicialmente, iriam ao evento, faltaram três: Cida, Zuleica e Guilherme. Os demais compareceram, pontualmente. Eu, Lenimar, Eliane, Élida e Simone com sua filhota Júlia. Ao final, combinamos que aquele fora o primeiro de muitos reencontros dos colegas de trabalho – uns já aposentados outros ainda na ativa.

Lembro-me de outro grupo que passou anos almoçando junto, mensalmente, em nome da amizade consolidada durante os cursos de faculdade. Participavam, além de mim, Beatriz, Orquídea, Roseno, Célia, Meire, Gersina, Conceição, Sales e sua esposa Osana. Precocemente, um aneurisma levou Célia a morar no céu e, a partir de então, os meses rarearam, o grupo dispersou-se. Não fosse a internet, hoje, nem teríamos noção das feições atualizadas uns dos outros. Afinal, conforme canta Cazuza em uma de suas canções, o tempo não para.

Quanto ao happy hour recente, aconteceu no Beirute, local de tradição brasiliense. Por estar completando cinquenta anos de existência, lá havia uma equipe de reportagem fazendo matéria comemorativa. Assim, fruto da coincidência, fomos parar nas páginas de um grande jornal. Pena que uma das colegas, sentindo-se ideologicamente patrulhada, em função do momento político delicado que vivemos já optou por desligar-se das redes.

Terá sido um reencontro ou uma redespedida? O tempo dirá.

 

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Et-Cétera-e-Tal

Meu abraço a todas as mulheres que semeiam a paz, a sabedoria e o amor”. As palavras são da presidente da Academia Internacional de Cultura (AIC), Meire Fernandes, durante cerimônia de entrega do Troféu-Mulher 2016. Há dezenove edições a AIC destaca, anualmente, dez personalidades femininas, nas mais diferentes áreas do saber – Salve! *** Tema da belíssima exposição fotográfica que o grupo ecológico Observaves exibe na galeria do Parque Olhos d’Água: “Para ter aves é preciso ter árvores”. Alguém ousaria discordar? *** Após 189 anos de fundação, o Jornal do Commercio, pertencente aos Diários Associados, encerrou suas atividades no último dia 29 de abril, quando circulou a última edição. Segundo o diretor-presidente Maurício Dinepi, o motivo do fechamento é a falta de anunciantes. Traduzindo: falta de leitores, consequência da era digital. *** Senhor, fazei de mim instrumento da Vossa paz!      

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(*) Jornalista (DRT/DF-3633); funcionário público, aposentado; poeta, autor de Vida de Vidro, Buquê de UrtigasQuem matou as Gazelas? e Samjahlia: Versos in Versos. e-mail: ildefonso.sambaiba@brturbo.com.br; twitter: @ildefonso_s

  

Culminâncias dos Pireneus -COLUNA CIÊNCIA PONTO CONSCIÊNCIA

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*Ildefonso de Sambaíba

Enfastiado dos recorrentes-capítulos-mesmos sobre o atual momento da política brasileira, resolvo sanear o corpo e a mente. Aceito oportuno convite de Leninha Caldas, para uma clausura de cinco dias numa pousada rural, encravada no sopé da serra dos Pireneus – município de Cocalzinho de Goiás. Leninha é ativa militante das causas ecológicas, como integrante do grupo Observaves. Conforme o nome já indica, a trupe viaja Brasil a fora, observando, fotografando e catalogando aves silvestres.

Então, eis a natureza a me proporcionar incontáveis exclamações! Especialmente quando ajudo a operar o playback com o canto de pássaros. A tática é usada para atrair os nativos para mais próximo do aparato de fotografias e filmagens. É extasiante vivenciar interações com seriemas e outras espécies mais arredias. E como se não bastasse, o habitat outono-primaveril é de tirar o fôlego, tal a beleza. Uma alternância de cerrados e matas ciliares, mesclados de calliandras e murtas, em variedades.

Nos ínterins, ainda apreendo rica teoria de conversas entre Leninha e os donos da pousada, também aficionados pela vida dos pássaros. Finalmente, chega a hora de literal culminância: subir ao topo do pico mais elevado da serra (1.385 metros de altitude), de onde é divisável o amplo verde azulado da região. Estendido num bordado de hectares cultivados e áreas preservadas, que avança além do alcance da vista.

Retorno a Brasília trazendo o astral totalmente revigorado!

 

Repertório Atemporal

Trinta anos após a gravação do primeiro disco, vinte da morte do cantor e compositor-poeta Renato Russo, os remanescentes do grupo musical Legião Urbana, Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos, remontam a banda para temporada de rememorações que vem causando expectativas e euforias. Trata-se da celebração de um dos repertórios mais antológicos dos anos oitenta, voz da geração pós-regime militar. Quem não se lembra da canção “Que país é este?”, de cunho político-social fortemente questionador de situações da época.

Os compositores do cognominado “Rock Brasil” são autores de uma trilha sonora marcante. Entretanto, no caso de Renato Russo o lirismo se impõe, imprimindo identidade de expressão única, em suas letras. Uma das peças de primeira grandeza é Monte Castelo, canção que enaltece o amor de forma extraordinária. Na verdade, uma adaptação de versos da primeira “Epístola de Paulo aos Coríntios” e do soneto “O amor é fogo que arde sem se ver”, de Luís de Camões.

O acalanto pode ser relembrado nestes destaques: “Ainda que eu falasse a língua dos homens  / e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria. / É só o amor, é só o amor; / Que conhece o que é verdade; O amor é bom, não quer o mal; / Não sente inveja ou se envaidece. / O amor é o fogo que arde sem se ver; / É ferida que dói e não se sente; / É um contentamento descontente; / É dor que desatina sem doer”.

Vem aí uma Legião Urbana repaginada, para seus admiradores.
Et-Cétera e Tal

Durante homenagem à escritora portuguesa Dulce Rodrigues, Marcos Linhares, presidente do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal, informa que a entidade atuará na parceria de organização da Feira do Livro de Brasília, deste ano. O evento será realizado no pavilhão de exposições do parque da cidade, entre primeiro e dez de julho. Aguardemos! *** Parece encontro marcado. No primeiro dia do outono eles já estão em todos os pontos de venda, lustrados como se estivessem banhados de verniz. Estou falando dos caquis, que dominarão muitas preferências durante sua curta sazonalidade. Que não fiquem enciumadas as outras frutas! *** O repórter de uma poderosa rede de TV devaneia: “vejam o chão forrado pelo tapete de flores caídas deste belo ipê rosa”. Acontece que a florada dos ipês se dá entre agosto e setembro, não em abril. As imagens exibidas são de uma frondosa paineira. Ora, vejam só! *** Compreensível que muitas famílias exultem com a aprovação, por parte do Congresso Nacional, para a fabricação e distribuição da fosfoetanolamina sintética, conhecida como pílula do câncer. A Anvisa não concorda, mas vale o velho ditado: Cada um sabe onde o sapato aperta. *** Senhor, fazei de mim instrumento da Vossa paz!      

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(*) Jornalista (DRT/DF-3633); funcionário público, aposentado; poeta, autor de Vida de Vidro, Buquê de UrtigasQuem matou as Gazelas? e Samjahlia: Versos in Versose-mail: ildefonso.sambaiba@brturbo.com.br

  

Terra, a nossa Flor de Sequoia! – COLUNA CIÊNCIA PONTO CONSCIÊNCIA

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 *Ildefonso de Sambaíba

            Como borboleta pousada em flor da sequoia, o homem precisa conscientizar-se de que a Terra é um ser vivo. A borboleta completa o ciclo de vida em cerca de vinte e cinco dias; a flor da sequoia dura meses. Se uma incauta borboletinha resolvesse passar a vida pousada naquele tipo de flor, movendo as anteninhas pra lá e pra cá, morreria sem notar que a flor desabrocha e viceja até apinhar-se em sementes. A longevidade da flor se dissipa diante do relâmpago ciclo da borboletinha incauta.

            Dá-se o mesmo com o homem em relação à Terra. Vivemos tão pouco em comparação com a existência planetária, que pensamos não ser ela um ser animado. Apenas uma girante bolinha azul cortejando o Sol. Entretanto, trata-se de uma criatura que se forjou na infância, alçou a estágios intermediários, e um dia atingirá o auge da maturidade universal. Na obra intitulada “A Grande Síntese”, o filósofo Pietro Ubaldi explica como tudo acontece, quase didaticamente.            

            Como ser vivo, a Terra reage em defesa própria, com terremotos, tsunamis, aquecimento global, diante das agressões que lhe causamos (desmatamentos, sangramento das águas, ações poluentes). Cá entre nós: já é hora de expurgamos nosso lado borboleta. O lado inseto que nos faz lançar excrementos na flor onde estamos pousados, a Terra, por considerá-la um ser insensível. Que tal nos humanizarmos, verdadeiramente?

 

 

Ações Integrativas “Viver Mais”

 

            A tarde do último dia 24 de fevereiro foi calorenta e acalorada. Um pequeno auditório foi lotado por pessoas dispostas a abraçar uma nobre causa em prol de comunidades menos favorecidas. A reunião aconteceu no oitavo andar do edifício anexo ao palácio do Buriti, sede do Governo do Distrito Federal. Foi a apresentação do “Projeto de Educação Popular Viver Mais”, que propõe um rol de práticas integradas, conforme experiência que deu certo em Angola e Moçambique, na África, com similaridade já realizada em Porto Alegre, no Rio Grande do sul.

            Na disseminação das ideias, está o doutor Manuel Luiz Caçador, um português radicado no Brasil há trinta anos. Ele expos sobre sua experiência junto às comunidades africanas, onde atuou implantando o que chama de “ações integrativas”. No caso do DF, em seu auxílio mais direto, está Elisa Mitiko, observadora da ONU que atua na Subsecretaria de Promoção Social do GDF, e também a professora Geralda Rezende, que é educadora popular. Além de uma equipe, ainda pequena, mas atuante, que já se movimenta na formatação de atividades preliminares.

            O projeto prevê a instalação de 31casas de educação popular, com parceria das Administrações Regionais do DF. Em cada unidade serão montados núcleos educativos, em áreas abrangentes, a cargo de grupos colaborativos. A aquisição de acervo para as bibliotecas, por exemplo, já recebeu a adesão do Celeiro Literário Brasiliense. O Celeiro agrega escritores, poetas e afins, que se reúnem todo sábado e domingo, na “bancan’do poeta”, na feira da torre. Portanto, mãos à obra, ou às obras.

 

 

Et-cétera e tal

 

A Academia Taguatinguense de Letras (DF), presidida pelo escritor Gustavo Dourado, promove o “IV Beco das Letras”, previsto para 19 de março (sábado), a partir das 15 horas. O evento se dará na sede da entidade, na CNB-01, AE 01, ao lado da Praça do Relógio. Constará de recital poético-musical alusivo ao Dia da Poesia e ao Dia Internacional da Mulher, lançamento de livros, inauguração das comissões da Mulher e da Cultura, além de homenagem a alunos da oficina de cordel. * * * Segundo uma brasileira que foi aluna do filósofo italiano Humberto Eco, “as preocupações dele sempre foram a verdade, a ética e a beleza”. Eco, falecido recentemente, é considerado um dos pensadores mais reluzentes destes nossos tempos. * * * “Na economia compartilhada, a posse se torna obsoleta e a sustentabilidade está em alta. O novo modelo transforma o que antes viraria algo encostado e pouco usado em algo que pode ser útil a outras pessoas. Virando, ainda, um bom negócio” (Flávia Gamonar). “Andar com fé eu vou / A fé não costuma faiá” (Gil). 

 *Ildefonso de Sambaíba é jornalista (DRT/DF-3633); funcionário público, aposentado; poeta, autor de Vida de Vidro, Buquê de UrtigasQuem matou as Gazelas? e Samjahlia: versos in versose-mail: ildefonso.sambaiba@brturbo.com.br

  

 

 

 

A GUERREIRA MARIA DA PAZ – COLUNA CIÊNCIA PONTO CONSCIÊNCIA

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A guerreira Maria da Paz

 

No sítio Macaúbas, só restam cinzas da velha mangueira que Maria da Paz tanto defendeu. Terminou a agonia da árvore que alimentou um conflito de anos – dois contra uma. Os contrários alegavam que a “inútil” só servia para juntar periquitos barulhentos e abelhas pegajosas, além de atrapalhar a pastagem. A pendenga era retomada a cada encontro familiar. “Quando eles faziam aquele riso de deboche, minhas veias do pescoço faltavam explodir. A gente saía do sério e o assunto era adiado”. Lembra Da Paz, ainda com vez de inconformada.

 

No papel de confidente, acompanhei o caso. Pouco a pouco, minguaram a velha árvore. Descascaram um largo cinturão na circunferência do seu tronco; podaram metade dos vigorosos galhos; martelaram prego envenenado, de cima a baixo. A cinquentona continuava atraindo mais bandos, a cada outono. Ataque final: com motor-serra, despedaçaram-na em metros. Da Paz chegou a pensar que era provocação pessoal, mas não adiantava mais nada dizer. Calou-se, em nome da fragilizada harmonia familiar.

 

Em dezembro último, Paizinha (tratamento carinhoso dado pelos irmãos) retorna ao Macaúbas, no Maranhão. Vê açudes e pastagens torrados pela estiagem; animais esqueléticos de fome, em toda a região; o monte de cinzas ainda intacto. Ela aproveita para aliar-se a uma nova causa. À defesa de dispersos hectares de mata virgem, sobrantes de exuberante floresta outrora apelidada “portal da Amazônia Legal”. Uma guerreira essa Maria da Paz!

 

 

O ser humano primeiro

 

Roberto Zwestch, professor de Antropologia das Religiões no mestrado e doutorado da EST (Escola Superior do Rio Grande do Sul), é especialista em estudos indígenas. No exercício do ofício, garimpou um texto que tem categoria de preciosidade. Trata-se do poema, intitulado “Ser Humano Primeiro”, que fora utilizado no altar pelos sacerdotes do povo Apapokuva-Guarany. Esse povo vivera seu ápice na divisa do Paraguai com o Brasil, proximidades de Foz do Iguaçu, no Estado do Paraná.

 

O texto fora objeto de ensinamentos sagrados dos Apapokuva-Guarany. Era uma espécie de livro do Gênese, se o compararmos ao primeiro livro da Bíblia, com revelações sobre a criação do homem (Ñanderu-Arandu) por Deus (Ñanderuvusu). Os pesquisadores traduziram o extenso poema, inicialmente, do tupi-guarani para o espanhol. Professor Zwestch trouxe-o do espanhol para o português. A seguir, alguns versos pinçados para apreciação dos leitores desta coluna.

 

            A primeira manhã surgiu voando sobre o mundo / tal garça a ferir com suas asas a pedra. / Partiu da noite mais antiga / e pousou nos ombros do Pai Maior./Ñanderuvusu passou a mão / sobre a plumagem branda da claridade, / e cobrindo o rosto com a espuma nascente do amanhecer, / chamou ao seu lado Ñanderu-Arandu, o Patriarca. […] Em ti começa o tempo, / tu és o princípio; também tu és fim. […] Eis que Ñanderu-Arandu deparou-se com a imensidão / e pôs-se a tremer […]. E reverenciou Ñanderuvusu, / ao ver a própria face unida à face da lua, / refletida nas águas mansas do primeiro anoitecer.

 

 

Et-cétera e tal

 

Já é fevereiro, 2016 está voando! Lembro-me do poema antropofágico “foice o tempo”, impresso nas tábuas do tapume de uma construção vizinha à minha casa. Terminada a construção, foi-se o poemeto. * * * “My English” é o nome do curso de inglês, gratuito e com certificação, implementado pelo Ministério da Educação, relacionado ao programa “Ciências sem Fronteiras”, para estudantes universitários. Está no site do Mec. * * * “O autodidata raras vezes consegue vencer os perigos de sua formação caprichosa. Nada mais arriscado na vida intelectual do que confiar ao esforço próprio e isolado todo o trabalho de informação, abstração, generalização, dedução, coordenação, classificação e crítica dos fatos lidos, numa palavra, de todos os processos indispensáveis à constituição de uma ciência verdadeira e de bom cunho” (Leonel Franca).

 

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Ilfonso de Sambaiba é Jornalista (DRT/DF-3633); funcionário público, aposentado; poeta, autor de Vida de Vidro, Buquê de UrtigasQuem matou as Gazelas? e Samjahlia: versos in versose-mail: ildefonso.sambaiba@brturbo.com.br

ESTREIA DA COLUNA “Ciência ponto Consciência”

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Ildefonso de Sambaíba- Foto de Leninha Caldas
Hoje, estreia a Coluna “Ciência ponto Consciência“,  de nosso sindicalizado Ildefonso de Sambaíba, matricula 112.

O colunista abordará assuntos ligados a Ciência, ética, valores humanos, literatura, cultura, meio ambiente, artes, ou algo que se assemelhe com esses assuntos. A periodicidade será mensal.

Ildefonso de Sambaíba é maranhense de Grajaú, reside em Brasília desde  1973 – jornalista (DRT/DF-3633); funcionário público; poeta, autor de Vida de Vidro,Buquê de Urtigas, Quem matou as Gazelas? e Samjahlia: versos in versos. E-mail- ildefonso.sambaiba@brturbo.com.br

 

Ano novo, florada nova

Vivemos a primeira grande temporada anual do amarelo em Brasília. A segunda se dará entre agosto e setembro, com a floração dos ipês. A de agora está a cargo dos cambuís. Os fotógrafos de todo dia parecem pouco empolgados com o momento. Em setembro último chegavam a montar verdadeiros estúdios a céu aberto, para retratar a paisagem. Agora, não se vê um cliquezinho, sequer.

Em frente a minha janela há um cambuí se desmanchando em flores. Cada um dos seus galhinhos sacoleja vigoroso buquê, sortido de pétalas e botões. Postei foto da árvore embrulhada de ramos na rede social. Ela recebeu abreviados “que-lindos” e “que-belos”. Diferentemente das fotos dos ipês, sempre aclamadas e declamadas.

Alô, paparazzi plantonistas: Que tal entrarem em ação? Tratamento igual ao dado aos ipês merecem os cambuís. Estes também estão embelezando nossa cidade, em pleno despontar de 2016. Vêm atraindo até os mais distraídos olhares, especialmente, agora que as avenidas parecem menos sufocadas, graças ao período ferial. Inclusive daqueles ali da Esplanada.

Ano novo, livro novo

Após onze anos sem publicar obra individual, começo o ano com um novo livro nas gôndolas. Poesia, claro! Os anteriores foram, ou melhor, são: Florescência, Vida de Vidro, Quem Matou as Gazelas? e Buquê de Urtigas, sem contar a participação em várias obras coletivas. O novo livro se intitula “Samjhalia: versos in versos”. Editado graças a uma parceria com a Editora Kiron, de Taguatinga (DF), está distribuído, até agora, em cinco redes de livrarias, inclusive na livraria Cultura, podendo ser adquirido via internet.

“Samjahlia: versos in versos” consta de 98 poemas. São composições curtas, em grande maioria, o que favorece a leituras rápidas, não obstante aquelas mais atentas. O livro está dividido em cinco partes – quamer, à derme, à carne, ao cerne e decacer – de acordo com a semelhança temática dos poemas. Os comentadores de orelha são o ator e diretor de teatro Humberto Pedrancini, a artista plástica Gisel Carriconde e o professor de Filosofia da Universidade de Brasília (UnB) Hilan Bensusan.

Samjahlia é um exercício de compor fonemas. Dentro dos poemas e dentro dos segredos, eles ficam prontos para serem sussurrados em voz alta, diz Bensusan, em seu comentário. Eu? Concordo, claro.

Ano novo, tabela nova

Agitação no universo da Química. A tabela periódica, aquela que continua causando calafrios nos vestibulandos e assemelhados, acaba de receber mais quatro elementos. A União Internacional de Química Pura e Aplicada, responsável pela confirmação da descoberta científica, diz ser provisório tanto o nome dado aos novatos como a respectiva posição de cada um na tabela. Decerto, aqui estão eles: unúntrio (Uut, ou elemento 113), unumpêntio (Uup, ou elemento 115), ununséptio (Uus, ou elemento 117) e ununóctio (Uuo, ou elemento 118).

Reflexo imediato da novidade: livros didáticos do mundo inteiro estão desatualizados neste momento. No âmbito do Brasil, o Ministério da Educação (MEC) que já vem quebrando cabeças com suas edições, em função do acordo ortográfico da língua portuguesa, em vigor desde primeiro de janeiro – ora, pois, pois – tem mais esse adendo para com os livros de ciência. Parodiando o velho ditado, são os ócios dos ofícios.

Et-cétera e tal

Dia desses, um jornal do Distrito Federal deu página inteira de sugestões de livros para leitura durante as férias. Nenhum título de autor deste quadrilátero que nos cerca. + + + Flui espontaneidade nos encontros abertos, promovidos pelo Celeiro da Literatura Brasiliense (Ronaldo Mousinho), todo domingo, no quiosque Poet’ando, na feira da torre. Saraus, lançamento de livros e bate-papo, hiper-super-agradáveis! + + + “Senhor, fazei de mim instrumento da vossa paz.”